Eu também me rendi


Há dois ou três dias essa foto tem causado comoção nas redes sociais. Pelo que li, trata-se de uma criança síria que, na época do registro, deveria ter uns 4 anos e vivia como refugiada em algum acampamento daquela região. Ao ser surpreendida pela presença do fotógrafo empunhando sua “arma”, a pequena levantou seus bracinhos, como que se rendendo.

Não há como imaginar o tipo de terror, sofrimentos e medos que alguém tão jovem deve ter presenciado e vivido para se “render” à uma câmera fotográfica. O olhar dela é cortante, penetrante, petrificante. Não me canso de olhar... Tento me transportar para a sua realidade, mas fracasso todas as vezes. Tento simular em mim o que ela parece estar sentindo, mas vivo num mundo cor-de-rosa demais para ousar fingir que entendo. Seria desrespeito.

Mas, ouso sonhar com o que gostaria de fazer com ela se tivesse a oportunidade. Eu a traria para casa. Perguntaria o que ela gostaria de fazer primeiro: tomar banho, comer ou brincar... pois é assim que eu sempre faço com a minha filha.

Se a primeira opção fosse o banho, encheria uma banheira de plástico que ainda guardo para me lembrar dos doces anos em que a usei para banhar minha pequena. Encheria com água morna, sabonete líquido para fazer espuma e brinquedo de borracha para ela se divertir por 10... 15 minutos ou por todos os “só mais um pouquinho” que desejasse. Terminaria o banho antes que a água gelasse e enxugaria seu corpinho enrugado de frio enquanto brincava de “cadê o bebê?”.

Depois a deixaria brincar um pouco e ver TV, tudo junto e misturado, enquanto prepararia algo para ela comer, provavelmente macarrão... pois eu também sempre faço essa pergunta e a resposta é quase sempre a mesma. E, por fim, eu a poria para dormir numa cama quentinha, com uma boneca de pano ao lado e cantaria para ela, até que ela se rendesse ao sono.

Porque deveria ser somente a uma boa noite de sono que crianças como Hudea deveriam se render.

Mas, o mundo dela não é cor-de-rosa como o meu. Na verdade, nem o meu o é. Mas, não me atrevo a comparar minhas dificuldades com as dela. Para falar a verdade, me constrange estar onde estou nesse momento escrevendo esse texto, enquanto ela deve estar dormindo em uma tenda, comendo e bebendo porções racionadas e pronta para se render a qualquer momento.


Eu também me rendi...

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