Extremos
Extremos sempre me incomodaram. Dormir muito tarde ou dormir muito cedo. Acordar muito tarde ou acordar muito cedo. E todas as combinações possíveis com certeza irão me irritar em algum grau.
Muito frio. Muito calor. Não ter a liberdade de colocar algo moderadamente leve ou pesado sem passar frio ou suar em bicas é algo irritante.
E para alguém que odeia extremos e polarizações, os dias tem se tornado cada vez mais sombrios no campo das discussões, das interações, das manifestações de opinião. Meu Deus, o que fizeram com a parcimônia, com o respeito à opinião alheia ainda que não concordemos? Qualquer coisa que se diga é respondida com uma frase que vai rotular alguém, seguida de tentativas ferozes de desacreditar qualquer informação que se tente compartilhar.
Minha avó tinha um ditado: "Meus amigos não têm defeitos. Meus inimigos não tem qualidades. Se tiver, eu tiro". E, hoje, qualquer um que não diga o que eu quero ouvir, tornou-se meu inimigo. Qualquer um que questione minhas certezas, perde todas as suas qualidades.
Nesse delírio coletivo em que vivemos e em que todos pregam tolerância e empatia, mata-se o primeiro que ousar pensar diferente, falar diferente, viver diferente. Números só servem quando sustentam minhas crenças, estatísticas só são válidas se corroboram minhas teorias, análise só merecem meu respeito se abençoam minhas escolhas.
Nos fechamos ao "talvez eu esteja equivocado", como se a verdade estivesse no ventre de cada um de nós - comprada, parcelada e paga em 24 vezes sem juros no cartão que tem a bandeira da prepotência, da cegueira, de um estado delirante que eu ainda não entendi se é involuntário e ingênuo ou sordidamente premeditado, mesmo.
Sentimos orgulho por nos rodearmos de iguais e furamos nossos olhos para não vermos que viver envolve amadurecer nosso olhar ao longo dos anos, das experiência - boas e ruins. Ficamos cegos para nossos erros e para o acerto de quem nos desagrada. E assim seguimos convictos de que não há nada mais a conhecer, aprender, questionar, refutar. As únicas verdades que existem não as minhas e o que passar disso... bem, o que passar disso nem merece ser discutido.
O lado do bom disso, se é que ele existe, é que me vejo obrigada a conviver sempre com algum extremista, já que os moderados desistiram da briga e se recolheram, se calaram, viram que não vale a pena. E nesse exercício diário, pratico o me relacionar com as diferenças, me esquivando dos espinhos da agressividade, do cinismo, da hipocrisia e tantos outros.
Queria ter um fim melhor para esse texto, mas ele não tem pretensão nenhuma. Não pretende causar reflexões ou, sequer, alguma reação. É apenas um exercício de falar com os dedos num momento em que sou privada da companhia dos meus pouquíssimo amigos queridos, tomando um café e conversando civilizadamente sobre absolutamente tudo, sem ofensas, rótulos nem agressões gratuitas.


Autentica a sua fala com os dedos, Patricia! Desce um cafezinho e vamos continuar essa prosa.
ResponderExcluirEu pago!
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