INDIVÍDIU




Saindo da padaria que fica perto de casa, me deparo com um pintor, sujo de tinta, máscara enganchada na testa, no meio da diária e na pausa para o cafezinho, pois já são quase 10h da manhã. Entre um gole e outro, grita com troça para um companheiro que vai longe: “Tome vergonha, sujeito!”. Ninguém responde e eu não viro para ver a quem ele se refere.

Mas, como de costume, sigo calada me apossando mentalmente da conversa e penso: “Deixe de ser um indivídiu!”. Sim, o certo é indivíduo... mas, minha vozinha materna, Dona Tercina – que Deus a tenha, dizia “indivídiu” quando queria ofender alguém. Na sua cabeça simples e humilde, chamar alguém de indivídiu era a maior das ofensas. E seguia danando com todo mundo.

“Seu tio é um indivídiu! Ficou de me levar no médico e nada!” – já idosa, se deixasse, ela queria fazer tudo sozinha e ficava brava quando lhe davam uma volta.

“Minino, corre aqui que eu tô mandando! Deixe de ser indivídiu e me obedeça que sua mãe tá trabalhando!” – nem os netos escapavam da ofensa.

“Você deixe de der indivídia! Passe prá dentro a-go-ra!” – sim, assim como indivíduo tem a versão feminina, as indivídias também existiam: netas, filhas, primas, vizinhas e qualquer uma que fizesse algo para merecer aquela ofensa terrível.

E, hoje, enquanto tomo o café da foto e escrevo esse texto, fico a refletir em como o mundo anda cheio de indivídius – eles e elas. O indivídiu reúne em si milhares de defeitos – alguns mais graves, outros até engraçados. Gente traiçoeira, egoísta, mentirosa, mas também o neto desobediente, o filho que marca e não aparece, a neta que foge prá brincar na rua.

Mas, prá vovó eram todos indivídius. Até ela, de vez em quando, era indivídia... acreditam que vendia gaiola no corredor entre a porta da rua e a sala da casa? Eeeeh, vovó, não ajude a aprisionar os pássaros... se fosse hoje, já grande, acho que ia lhe chamar de indivídia, você ia bufar, virar a cara e resmungar: “Indivídia é você! Me respeite e me trate bem!”

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