O homem do abacaxi
Lá se vão 59 dias de isolamento e home office e, nesse meio
tempo, muitas descobertas sobre acontecimentos que eu desconhecia completamente.
Não que sejam coisas importantes, mas o confinamento nos leva a rever o valor
das experiências, das lembranças, das vivências.
Em casa vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana,
descobri que o caminhão do lixo reciclável passa na minha rua às nove em ponto –
tãnãnãnãnãnãnã tãnãnãnãnãnãnã, segue buzinando uma melodia que ajuda a avisar aos
esquecidos que tá na hora de descer as caixas de leite e as embalagens
plásticas. Descobri também que das oito ao meio-dia dá para fritar um ovo na
minha cama se a janela estiver aberta. Isso eu poderia ter descoberto nos
finais de semana antes da pandemia, mas nunca tinha reparado.
Outra descoberta foi que na padaria da minha rua a chance de
comprar pão francês é só até as nove e meia, se passar desse horário vai ter
que se contentar com o mandi ou mané pelado. É também na parte da manhã que os
caminhões de entrega que descarregam no mercadinho da frente tomam a frente do
meu prédio, não sobra vaga para estacionar nem uma vassoura.
Isso me faz lembrar de quando estava de licença maternidade
e, na primeira semana em casa, com uma recém-nascida que acordava a cada duas
horas para mamar, descobri que às quatro da tarde passava o carro do abacaxi. Poucas
vezes na vida experimentei meus instintos assassinos com tanta força. Quando eu
era criança, os vendedores de bem gritavam eles mesmo suas propagandas, com um
megafone velho e tendo que se equilibrar na bicicleta – gritavam por dez
segundos e levavam outros cinco minutos para voltar a se equilibrar e não cair
com bicicleta e tudo. Isso nos dava algum descanso para os ouvidos. Mas aí veio
a tecnologia e alguém teve a infeliz ideia de gravar a ladainha do vendedor num
DVD e colocar para tocar no auto falante do carro. Lavínia dormindo e sonhando
com a próxima mamada, eu desmaiada e sonhando com quando voltaria a dormir por
mais de duas horas novamente e me passa o homem do abacaxi.
- Ooolhhhhhaaaa o abacaxiiiiiiii!!!!!! – com aquela voz de
locutor do Armazém Paraíba. Acordei num salto, achei que era pesadelo. Olhei
pro lado, Lalá dormindo. Silêncio.
- Minha amiiiiiiiiga, meu amiiiiiiiiigo! Você passando aí do
OOOOOUTRO lado da rua!!! Abacaxi dociiiiiiiinho – docinhooooo!
Me levantei às pressas. Gosto de sangue na boca, medo do leite
azedar de tanto ódio.
Coloquei as mãos nos ouvidinhos da pequena, tentei chamar
minha mãe sem gritar.
- Mãe!!! O que é isso??!! – perguntei quase chorando de
tanta raiva.
- É o homem do abacaxi, minha filha. Ele passa nesse horário
– disse minha mãe fingindo calma, mas ela mesmo querendo fatiar o homem.
- Todo dia, mãe?!!!!
- De vez em quando... – até hoje não sei se ela falou com
convicção ou se com medo da minha reação.
- Veeeeeeenha, veeeeenha, pode experimentar!!!! Abacaxi
dociiiiiiiiinho! – não parava, não precisava parar, não era megafone, não
precisava se equilibrar na bicicleta.
Às vezes acho que isso é fruto da minha imaginação,
alucinação de parturiente, porque não lembro de outra ocasião assustadora como
essa. Nunca mais ouvi o moço. Desconfio que meus poderes especiais de mãe
enviaram ele prá vender abacaxi em outra dimensão, com megafone e de bicicleta cargueira.



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