Carta aberta para Dona Maria Moitinho


Olá, Dona Maria Moitinho. Espero que essa carta lhe encontre bem. Mas, temo que não será assim.

Não nos conhecemos – eu moro em Goiânia e a senhora mora em Manaus. Mas, mesmo sem conhecê-la pessoalmente, ontem fui dormir pensando na senhora, na sua dor. Cheguei a falar da senhora em minha sessão de terapia. Sua dor me comoveu. E hoje, quando acordei, fui surpreendida pelo calendário das redes sociais, que diz que hoje é Dia da Família. As datas comemorativas não tem esse nome à toa – servem para comemorar algo. Nem sei se a senhora sabe que hoje é comemorado o Dia da Família, mas, se alguém tiver a insensibilidade de lhe contar, imagino que o seu pensamento será de que sua família nunca mais será igual.

Quando ouvi a sua entrevista ontem na TV, contando que em abril perdeu seus três filhos mais velhos para a convid-19 num intervalo de menos de 15 dias, fiquei sem reação. Adalberto tinha 58 anos e faleceu dia 5, Tiago tinha 52 e foi o primeiro a partir, no dia 1º de abril, e Iolanda, de 48 anos, se foi no dia 13. Esse cenário de pandemia, que para muitos – inclusive eu – é um emaranhado de números, decretos, brigas e estatísticas sem fim, para a senhora vai ficar marcado como um período de agonia que amputou sua família.

Nesse momento, enquanto escrevo essa carta, estou tomando um cafezinho que acabei de passar, na minha pausa do almoço. Queria dividir uma xícara de café com a senhora – eu tenho por princípio, sempre que possível, tomar café com as pessoas que admiro e minha admiração pela senhora está na sua força. Nesse café com prosa, íamos falar do nosso susto de acordar e ver o mundo de cabeça prá baixo. Quem diria, dona Maria, que um vírus lá da China ia atravessar oceanos e países e causar tanta tragédia? Íamos dizer vários “já pensou?”, “mesmo??”, “meus Deus...”.  Eu ia querer mais ouvir do que falar, pois nem sei o que dizer para uma mãe que perdeu tanto. Mesmo sendo mãe, não me atrevo a dizer que imagino o tamanho a sua dor. Não imagino. Não ouso imaginar. No máximo, ouso orar pela senhora, para que Deus conforte seu coração. Na minha imaginação, o coração de uma mãe que perde um filho vira um deserto que só Deus pode fazer virar terra fértil de novo. Imagina, então, uma mãe que perde três filhos.

Acho que nessa conversa eu ia chorar muito e ia ficar com raiva de mim, porque quem tem o direito de chorar é a senhora. Mas, Deus nos disse que devíamos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram. E é com lágrimas que eu encerro essa carta. Desejando, do fundo do meu coração materno, que o seu coração volte a florir. Que a dor vire saudade e que essa saudade resgate as boas lembranças de seus filhos. Ah, dona Maria... dona Maria... nesse dia da família, sinta-se abraçada.

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