Bolo de limão


Há cerca de três semanas comprara aqueles três limões na esperança de imitar um delicioso bolo de limão que comera na casa de sua irmã. A massa era de pacotinho e os limões – suco com leite condensado – seriam usados na cobertura, que havia ficado divina. Desde então, todos os dias olhava para aqueles três limões, dentro de um saquinho transparente, que haviam ficado estacionados na estante da cozinha. Sequer tinham ido para a geladeira. E eles passaram a persegui-la com aquele olhar pidão, de cachorro que caiu da mudança. “Ei! E o bolo?! Vai fazer, não?!”.

Era entrar na cozinha para beber água e lá estavam os limões. Era recorrer à estante para pegar qualquer coisa e receber aquela encarada verde. Era buscar as coisas para montar o café da manhã e todos os dias olhar de soslaio para os famigerados limões. Aquele tipo de inimigo que a gente mesmo traz prá dentro de casa. E fazer o bolo? Nada.

Mas, não era só ter que lidar com os limões esquecidos que incomodava. Era o que a visão deles trazia à tona... Olhá-los todos os dias provocava a lembrança desconfortável de todas as outras coisas que estavam por serem feitas: aquela limpeza no guarda-roupas adiada desde dezembro, o check-up no cardiologista, o dentista da filha e o aparelho ortodôntico solicitado há mais de dois anos... Dois anos!

Aqueles malditos limões a lembravam da academia que ela tentava começar todos os dias, daquela hidratação nos cabelos que ela jurou fazer quando comprou produtos em quantidade para montar um salão em casa. Tinha ainda a consulta no dermato para tratar aquela micose na unha, que já tinha há tanto tempo que virara membro da família.

Todos os dias, nas últimas três semanas, o saquinho de limões era a primeira coisa que fisgava seu olhar ao entrar na minúscula cozinha. Até chegou a sacudi-lo, com o descaso de quem acha que está tudo dominado, e colocá-lo na pia para finalmente fazer o tal bolo. Mas, algo a distraiu no meio do caminho e horas depois os gêmeos voltaram para o castigo.

E assim, de distrações em distrações, ela seguia sua vida acumulando outros “limões”. Aquela bandeja de dobradinha exilada no congelador há meses, o varão da cortina que esperava há quase um ano para ser fixado na parede, as prateleiras do quarto, aquela outra da sala... Malditos limões que a faziam lembrar-se de todos os seus esquecimentos diários.

Já havia decidido andar sempre com um papel e uma caneta para ir anotando essas coisas todas que aguardavam para serem feitas. Mas, vivia esquecendo o papel e a caneta. Às vezes até começava uma listinha, fazia um rápido download das pendências que lhe assombravam a caixola, sentia aquele alívio imediato de esvaziar a cabeça e acreditar que o simples fato de anotar na lista já era meio caminho andado. Mas, logo perdia a listinha e, como que por encanto, tudo o que estava nela voltava a brincar de gangorra em sua mente lotada e esquecida.

Mas, voltando aos limões, hoje descobriu que um deles desistiu, sucumbiu à espera e apodreceu “de repente”. Cheia de culpa, declarou mentalmente em alto e bom tom: “De hoje, não passa!”. Todos os neurônios ouviram, o coração também. Eles certamente seguiriam cobrando uma atitude, um desfecho honroso. Aliás, não há cobradores piores do que uma mente e um coração que sabem das suas dívidas – principalmente aquelas que você assumiu consigo mesma. Não nos deixam esquecer. Mas, juntos, não são fortes o bastante para nos fazer agir, decidir, resolver.

Falta um detalhe para que o constrangimento da dívida pessoal nos impulsione para sua quitação imediata. Alguns chamam de atitude, outros de determinação, minha avó chamava de “opinião”: “Se a gente não tiver opinião, não faz nada nessa vida, porque o corpo quer é cama e o mundo engole a gente”.

Acho que o que falta mesmo é um limão podre, pra nos lembrar que uma hora o tempo acaba, a Inês morre e que o falso prazer de viver adiando aquelas coisas chatas que a existência nos obriga a resolver nunca será maior do que a satisfação íntima, silenciosa e avassaladora de, dia após dia, riscar mais uma tarefa da lista de pendências. Daquela lista de dívidas que a vida nos impõe ou que nós mesmos criamos para boicotar a nossa paz – coisa em que, aliás, somos mestres.


Mas, e o bolo? E os outros dois limões? A promessa de hoje é que sai até o final do dia, ou da semana ou antes que outro limão desista.

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