Passaporte



Gisele ganhou seu primeiro atlas aos 12 anos. Um presente meio diferente para se ganhar nessa idade, mas a mãe sabia o quanto a filha era curiosa e gostava de ler e quando o vendedor ambulante de livros passou pela rua naquele mês, sabia que aquele presente iria agradar. Acertou em cheio!

Leitora voraz, Gisele dormia e acordava com o tal atlas. A divisão dos continentes, os nomes de países que ela jamais imaginara, suas capitais e as fotos lindas que mostravam um pouco da cultura de cada lugar eram informações que enchiam os olhos da menina que sonhava em ser médica. Sonho que, depois de ganhar o atlas, passou a dividir espaço com outro ainda mais grandioso: conhecer o mundo.

Tudo isso passou como um filme pela cabeça de Gisele enquanto ela dirigia apressada para buscar seu primeiro passaporte – o atendimento era com hora marcada e ela não podia se atrasar. Na verdade, já estava atrasada... pelas suas contas, devia estar uns 30 anos atrasada. O coração batia forte, quase dava para ouvir. Parecia até que corria uma lágrima nostálgica por lembrar do famoso atlas. Queria tê-lo guardado de lembrança, mas foram tantas mudanças que o coitado ficou pelo caminho.  Mas as lágrimas não eram apenas nostalgia.

Havia também um pouco de constrangimento, vergonha talvez, por só agora estar vivendo aquele momento.  O sonho de conhecer o mundo sequer tinha começado. Já tinha quase 40 e nunca tinha saído do país: “Mas, eu nem tinha passaporte...”, justificava-se para si mesma. “Mas, agora vou ter um! O mundo que me aguarde!”, comemorava e prometia em tom de ameaça.

E na correria do trânsito, para não perder a hora, mais uma lembrança surgiu e essa a fez sorrir: quando ainda sonhava com o primeiro carro e lutava para tirar a carteira de motorista uma amiga sempre lhe estimulava: “Tira a carteira que o carro vem”, dizia Valéria. E não é que foi assim? Depois de 5 tentativas, finalmente conseguiu tirar a carteira e com menos de 6 meses comprara seu primeiro carro – do jeitinho que sempre sonhara. Então era isso: tira o passaporte que a primeira viagem vem!

Chegou com meia hora de antecedência. Aguardou na fila como se já estivesse a ponto de embarcar. Enquanto vidrava os olhos no painel de senhas, ficava imaginando qual seria sua primeira aventura. Talvez algo bem clichê tipo Londres, Paris, Roma ou Barcelona até se acostumar com a ideia. Talvez algo mais clichê ainda como Sri Lanka, Machu Picchu, Índia, Cuba ou outro destino descolado com cara de período sabático. Talvez o dinheiro só desse para ir até Buenos Aires, mas para lá nem precisava de passaporte. “Tô nem aí, vou carimbar nem que seja para ir ao Paraguai”, pensava em voz alta sem se preocupar se alguém ouvira.

A próxima senha era a sua. Sabia que teria que tirar a foto na hora e nem teve tempo de fazer uma boa escova ou caprichar na maquiagem. Logo ela, que odiava essas fotos de documento, pois sempre saía com cara de foragida da Interpol. Todos esses pensamentos ajudavam a passar o tempo, a esquecer aquele sentimento de cobrança que tentava tirar o brilho daquele momento: que demora, hein?

E outro filme começava, só que agora buscando justificativas que a inocentassem daquela sentença de fracasso: como assim chegar aos 40 anos sem um passaporte? A primeira vontade de sair do país veio logo após a formatura – se não arrumasse um emprego logo, tentaria a vida nos Estados Unidos. Mas, o destino quis que ela conseguisse um ótimo emprego antes mesmo de colar grau e a possibilidade de mudança deu lugar aos planos de fazer um intercâmbio quando tirasse férias. A mudança de emprego veio antes das férias, ao mesmo tempo em que o pai descobrira que não conseguiria a tão sonhada aposentadoria e a mãe sofrera um aneurisma. Ela e as irmãs precisaram unir-se para assumir as rédeas financeiras da família e, naquele momento, conhecer o mundo não era uma opção.

Mas, os tempos difíceis passaram – como sempre passam – e não faltaram oportunidades para cair no mundo. O que faltou mesmo foi colocar gás naquele sonho de infância. Novos trabalhos, novos relacionamentos, montar apartamento, férias na praia (praia brasileira!) e nada de passaporte... Depois veio o casamento, filhos, divórcio e o mais perto que chegara do resto do mundo era o que vinha pelos filmes e redes sociais.

Nesse exato momento das lembranças, sorriu timidamente ao dar-se conta de que com os filhos a história já era outra – ambos já tirariam seus documentos com menos de 10 anos. Essa constatação soava como vitória: com eles será diferente. E como sempre acontecia, sempre que vinha aquela pontinha de frustração por coisas que ainda não experimentara, projetava essas possibilidades nos filhos e ganhava outro ânimo com a simples esperança de que com eles seria diferente e melhor.

O painel eletrônico chamou sua senha. Sentia-se tão feliz e tão infantil que por pouco não se emocionou. Seria um mico! Quem chora só porque está tirando o passaporte? E perdoou-se novamente por ter adiando tanto aquele momento, por ter postergado esse e muitos outros sonhos, pela vontade de chorar e por ainda não ter nenhuma viagem planejada. Mas, agora, de passaporte na mão, tinha uma convicção igual àquela da época em folheava seu atlas: é só uma questão de tempo e a viagem vem!

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