Rotina




Martha gosta da rotina. Gosta do que lhe é familiar. Acordar no mesmo horário, atrasar-se os mesmos 20 minutos antes de descolar o couro da cama. De descer a rua pelo mesmo lado da calçada, atravessar no mesmo ponto para chegar à mesma padaria. Pedir a mesma quantidade de pães (sempre depois de fazer uma rápida conta de cabeça) e um litro de leite "de saquinho", pagar e voltar pelo mesmo caminho.
  
Mas, ela não pode revelar essa mania para qualquer um. É que existe uma lei moderna que condena gente como Martha. Uma lei que manda gostar do novo o tempo todo, de qualquer modo, que manda a gente sair do quadrado mesmo que lá seja um lugar quentinho e confortável, que manda adorar a mudança, mesmo que ela não possua real significado na nossa história, só pelo fato de ser moda, de que é perigoso não gostar do novo. E nem é que ela não goste do novo... até gosta. Mas, também gosta do velho, do conhecido, do repeteco.
  
Se ela contar como é, muitos vão dizer que é acomodada, medíocre, quase desnecessária. Até os que não a conhecem tão bem vão se achar no direito de julgá-la - e nisso, não há nada de novo. Vão rotulá-la de pouco criativa - e, como todo rótulo, cruel como ele só, vão transformar algo que é só dela em um defeito terrível, uma afronta ao pensamento moderno, um crime contra a inovação (que também virou moda), uma covardia.
  
Nesse exato momento, expondo essa esquisitice de Martha, já é possível imaginar o que alguns poderão pensar sobre ela, como irão julgá-la e, provavelmente, desqualificá-la. Mas, uma das vantagens de ser medíocre é a liberdade experimentada de não querermos agradar a todos o tempo todo. A liberdade de não ter nem precisar de uma vida "uau!" ou de ter o seu próprio significado para uma existência "uau!".
  
E exercendo essa sua liberdade, ela continua sua rotina, do mesmo jeito, no mesmo tempo, sem querer surpreender, mas me surpreendendo sempre, porque rotina não é viver em preto e branco, é a liberdade de ver cores em detalhes invisíveis para os que vivem obcecados pela velocidade da mudança.

Comentários

Postagens mais visitadas