Funeral


Em “Uma morte muito suave”, obra que Marina leu há mais de 20 anos e onde Simone de Beauvoir conta os dias que antecedem a morte de sua mãe, em certo trecho ela descreve, não necessariamente com essas palavras, que todo velório que acompanhamos é como se fosse um ensaio geral para o nosso próprio funeral. Esse trecho a marcou de tal maneira que, passados tantos anos, sempre se lembra dele quando vai a algum evento dessa natureza. 

Hipnotizada pela perspectiva do ensaio geral, mesmo em meio a toda tristeza e comoção, Marina se pega imaginando como será quando chegar sua vez. Quem avisará amigos e parentes? Quem cuidará dos detalhes? Escolher suas roupas, a urna, a empresa funerária – o cemitério já foi escolhido, é onde a família possui um jazigo – e aí se lembra que só cabem quatro “inquilinos” e seu pai já estreou o lugar. “Deus é mais!” - sente um arrepio, dá um tremelique e olha em volta para ver se não chamou a atenção de alguém. Se bem que, de uns anos para cá, tem pensado muito na possibilidade de ser cremada. “Haja planeta pra tantos vivos e mortos”, reflete com seus botões, sem ter coragem de compartilhar opinião tão prática com o resto da família. “Se eu falo isso no meio do povo lá de casa, vão todos me excomungar!” – imagina, deixando escapulir um risinho irônico. Quem serão os amigos que virão lhe dar o último adeus? Amigos da família, da mãe, principalmente. Gente que ela nem conhece, mas que vive orando por ela no grupo da igreja, a pedido da mãe. Antigos colegas de trabalho de tantos lugares por onde passou, até aqueles por quem não nutria nenhum afeto ou admiração. “Não é justo a gente não poder barrar uns e outros no nosso próprio velório”, resmunga para si mesma. A ideia de ter personas non gratas em seu velório provoca uma careta – outra vez, se lembra que está em público e olha em volta, desconfiada. Imaginar algumas figuras em seu velório incomoda ao ponto de pensar se não seria o caso de fazer uma lista de nomes a serem vetados e deixar com alguém de confiança. “Pensa se a entojada da Maria Regina vem no meu funeral!? Nunca gostou de mim, sempre fez pirraça no escritório e, ainda por cima, vir jogar terra na minha cara... isso é que não!”. Estava decidido: iria elaborar essa lista de barrados o mais breve possível, pois pra morrer basta estar vivo, e ia mandar o quanto antes para a irmã caçula, que era a que mais compreendia suas neuras e manias. A resolução até lhe dera um certo alívio, pois morrer é da vida, mas ninguém é obrigado a receber uma leva de falsianes no próprio velório, desaforo tem limites.

Tantos pensamentos deram uma vontade enorme de beber algo. Como o dia estava chuvoso, Marina concluiu que um capuccino cairia bem, mas obviamente ninguém pensou nisso – seja porque estavam ocupados demais com as providências essenciais ao velório, seja por estarem sofrendo demais com a perda do ente querido. E foi então que começou a planejar o que serviria em seu funeral, ou melhor, o que os outros serviriam. Mas para garantir sua vontade, era preciso deixar isso escrito para alguém providenciar. Agora, além da lista dos vetados no evento, era preciso elaborar o cardápio – coisa simples, até porque, na cabeça de muita gente, comida não combina muito com velório. O que, aliás, Marina achava uma bobagem. Se o morto já morreu, que os vivos possam se despedir num ambiente agradável, com uns petiscos gostosos, uma bebidinha quente, outra gelada... deixa o ambiente até mais leve.

E o que melhor para deixar um ambiente leve do que uma musiquinha suave, um sonzinho apropriado para acalmar os presentes e ajudar a lembrar dos bons momentos com o anfitrião? E foi aí que Marina resolveu que, além das listas de barrados e do cardápio, era providencial montar sua própria playlist. Um pouco de anos 80, 90, alguns hinos da harpa e um pouco de gospel. “Vou começar a montar minha lista hoje mesmo e aos poucos vou inserindo as músicas que marcaram minha vida”, planeja enquanto bebe um gole d´água natural que ajudar na certeza de que em seu velório há de ter água com gás, suco, refrigerante – normal e diet, café e cappuccino com canela. Afina, só se morre uma vez.


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